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Journal Siaris · Ensaio · Pedagogia

Por que erramos menos
do que deveríamos.

A escola passou décadas ensinando que o erro é o problema. A ciência cognitiva passou o mesmo tempo mostrando que ele é, em muitos casos, a solução.

Alef Kurita Journal Siaris 8 min de leitura
Aluno pensando diante de um problema
Tentar e errar não é o oposto de aprender. É o começo.

Imagine dois grupos de alunos estudando o mesmo conteúdo. O primeiro recebe a pergunta e a resposta juntas. O segundo recebe apenas a pergunta — tenta responder, erra — e só depois vê a resposta certa. Uma semana depois, qual dos dois lembra mais?

A resposta que a pesquisa dá é a segunda opção, de forma consistente. Não por pouco: em estudos replicados por diferentes grupos ao longo de décadas, o grupo que errou primeiro reteve significativamente mais. O erro não atrapalhou o aprendizado. Ele preparou o terreno para ele.

Se isso é verdade, há algo profundamente equivocado em como estruturamos o ensino — não só no Brasil, mas em boa parte do mundo. Porque o que a maioria dos sistemas escolares faz é o oposto: organiza o ambiente inteiro para que o aluno erre o mínimo possível.

O sistema foi construído para eliminar o erro

A lógica parece razoável à primeira vista: se o aluno aprende o certo desde o início, não vai fixar o errado. Certo? Não exatamente. Essa premissa ignora como a memória funciona — e constrói, no lugar, uma cultura onde o erro virou sinônimo de fracasso.

No modelo escolar tradicional, o professor explica, o aluno escuta, e o teste ao final mede quem aprendeu. O erro aparece na prova — com peso na nota, com consequência social, com o risco de julgamento. O aluno aprende, antes de qualquer conteúdo, que a resposta certa é o objetivo, e o erro é o inimigo.

Essa lógica não é exclusiva de uma disciplina. Ela atravessa matemática, ciências, história, língua estrangeira. Em qualquer matéria onde existe uma resposta certa, o mesmo padrão se repete: o sistema recompensa quem acerta na primeira tentativa e penaliza quem precisa de mais.

O medo de errar em sala de aula · escala FLCAS (Horwitz et al., 1986)
Medo de errar na frente da turmadimensão central da ansiedade linguística
~88%
Preocupação com o julgamento do professorao produzir respostas incorretas
~74%
Objetivo principal ao falaralunos mais ansiosos: não cometer erros
evitar erro
Gráfico 1 — dados consolidados da Foreign Language Classroom Anxiety Scale (FLCAS) e estudos subsequentes. Horwitz, E. K., Horwitz, M. B., & Cope, J. (1986). Foreign language classroom anxiety. The Modern Language Journal, 70(2), 125–132. Gregersen, T., & Horwitz, E. K. (2002). Language learning and perfectionism. The Modern Language Journal, 86(4), 562–570.

Isso não é trivial. Quando o aluno mais ansioso define o objetivo de abrir a boca como "não errar" — em vez de "comunicar" — ele está se sabotando antes de começar. O medo não é só desconforto; ele redefine o que o aluno está tentando fazer. E essa redefinição trava exatamente o processo que a ciência identifica como essencial para aprender.

Crianças sentadas enfileiradas em sala de aula tradicional
Décadas de carteiras enfileiradas, olhando para a resposta certa.

O que acontece no cérebro quando você erra

Três achados da ciência cognitiva que contrariam o que a escola ensina.

01
Tentar e errar prepara o cérebro para aprender
Quando você tenta recuperar uma informação e não consegue, o cérebro fica em estado de alerta para recebê-la. A resposta certa, quando chega, entra com mais força do que se viesse logo de início.

Kornell, Hays & Bjork, 2009
02
Quanto mais certeza você tinha, mais a correção grava
Erros cometidos com alta confiança são corrigidos com mais sucesso do que chutes inseguros. A surpresa de "eu estava tão certo e errei" eleva a atenção e grava a correção com mais força na memória.

Butterfield & Metcalfe, 2001
03
Lutar com o problema antes da aula gera mais compreensão
Alunos que tentam resolver um problema novo antes de receber qualquer instrução — e em sua maioria fracassam — desenvolvem compreensão conceitual e transferência de conhecimento maiores do que quem recebeu a aula primeiro.

Kapur, 2014

Esses três efeitos têm algo em comum: todos dependem de que o erro aconteça antes da resposta certa. E todos foram documentados não em um único estudo, mas em pesquisas replicadas por diferentes grupos, em diferentes contextos, ao longo de décadas.

O mecanismo subjacente é o mesmo nos três casos. Quando o cérebro tenta recuperar algo que ainda não sabe — e falha — ele sinaliza aquele gap como relevante. A resposta correta, quando finalmente chega, não é recebida passivamente: ela preenche uma lacuna que o próprio esforço de recuperação criou. É esse contraste que fixa.

"Errar não interrompe o aprendizado.
Em muitos casos, ele é o aprendizado."

O terceiro efeito — o da "falha produtiva", como Manu Kapur chama — tem uma implicação particularmente relevante para professores. Os alunos que tentaram e fracassaram antes da instrução não saíram piores: saíram com o mesmo conhecimento procedural que os outros, mas com uma compreensão mais profunda do porquê das coisas. A luta não foi um obstáculo ao aprendizado; foi o que deu sentido à aula que veio depois.

Isso inverte a lógica tradicional de "explico primeiro, depois praticam". Não sempre — e veremos adiante quando a ordem importa — mas o instinto de proteger o aluno do erro antes de ensinar pode estar, em muitos casos, removendo exatamente o que tornaria a aula memorável.

Na aula de inglês, o preço é ainda maior

Em matemática ou história, o erro é escrito no papel ou dito em voz baixa. Na aula de língua estrangeira, ele acontece em público, em tempo real, enquanto todo mundo ouve. Isso adiciona uma camada que não existe em outras disciplinas: o erro expõe não só o que você não sabe, mas como você soa.

A linguística aplicada lida com isso há pelo menos cinquenta anos. Em 1967, o linguista S. P. Corder publicou um artigo que mudou como a área pensa sobre o erro: em vez de tratá-lo como hábito incorreto a ser eliminado, Corder argumentou que os erros revelam o estágio real de aprendizado do aluno. Não são desvios aleatórios — são evidência de que ele está testando hipóteses ativamente sobre como a língua funciona.

Larry Selinker (1972) batizou esse sistema intermediário — nem português, nem inglês, um sistema próprio e em constante evolução — de interlíngua. A implicação é simples, mas radical: falar inglês errado não é o oposto de aprender inglês. É, tecnicamente, o nome do processo.

O problema é que a cultura de sala de aula raramente trata o erro dessa forma. E quando o ambiente é punitivo — quando errar em voz alta tem um custo social — o aluno aprende a estratégia mais racional disponível: falar o mínimo possível. Só quando tiver certeza. Só quando souber. O que, na prática, significa nunca.

O que a pesquisa diz sobre feedback e correção de erros em língua estrangeira +

Uma meta-análise de 33 estudos (Li, 2010) encontrou que o feedback corretivo em aulas de língua estrangeira produz ganhos reais e duradouros — não é aquele efeito que desaparece em duas semanas. Mas o tipo de feedback importa, e os achados são contraintuitivos.

A forma de correção mais usada por professores é o recast: o professor simplesmente reformula o que o aluno disse, corretamente, sem apontar o erro. Parece elegante — corrige sem constranger. O problema é que, segundo Lyster e Ranta (1997), o recast é também o tipo de feedback que menos gera correção bem-sucedida pelo próprio aluno. A razão: o aluno frequentemente não percebe que foi corrigido. Confunde a reformulação com uma confirmação do que disse.

Aqui entra uma nuance importante: o recast funciona melhor com alunos mais avançados, que têm repertório suficiente para notar a diferença entre o que disseram e o que o professor reformulou. Para alunos iniciantes, essa diferença passa despercebida — e a pesquisa de Li (2009) confirma isso: feedback explícito funciona melhor para alunos de baixa proficiência, enquanto para alunos avançados o tipo de correção deixa de fazer diferença.

O tipo de feedback com maior taxa de autocorreção bem-sucedida é a elicitação: o professor dá uma pista e deixa o aluno gerar a forma certa sozinho. O mecanismo é o mesmo do pretesting effect — produzir ativamente fixa mais do que receber pronto. Mas aqui também há uma condição crítica: só funciona se o aluno já tem a bagagem para produzir a resposta. Elicitar de quem ainda não teve contato com a estrutura correta só gera frustração ou silêncio. Nesses casos, a estratégia certa é dar o input direto agora — e cobrar a produção depois, quando o aluno já teve chance de internalizar.

Referências: Li, S. (2009). Applied Language Learning, 19, 53–79. Li, S. (2010). Language Learning, 60(2), 309–365. Lyster, R., & Ranta, L. (1997). Studies in Second Language Acquisition, 19, 37–66.

Professor e aluno em conversa próxima, interação real
Corrigir não é punir. É o que acontece depois do erro que define tudo.

Nem todo erro ensina da mesma forma

Existe uma condição que atravessa toda a pesquisa sobre aprendizado com erros: o erro só vira aprendizado quando o aluno percebe a diferença entre o que produziu e a forma correta. O psicólogo Richard Schmidt (1990) chamou isso de noticing the gap — notar a lacuna.

Sem essa percepção, a correção passa batido. O erro não se transforma em dado; simplesmente se repete. É por isso que um ambiente silencioso — onde o aluno nunca tenta, nunca erra e nunca recebe correção — não produz segurança. Produz estagnação.

Isso muda a pergunta central. Em vez de "devo deixar o aluno errar ou não?", a pergunta útil é: como estruturo o erro para que ele seja percebido? E aqui a pesquisa tem respostas concretas.

Estratégias que funcionam — e as condições que fazem a diferença +
Estratégia Por que funciona A condição
Quiz antes de ensinar Recuperar ativamente fixa muito mais do que reler ou escutar a explicação (Roediger & Karpicke, 2006) Tem que ser de baixo risco — quiz que pesa na nota ativa ansiedade e cancela o ganho
"O que você acha?" antes de explicar Tentar — mesmo errando — prepara o cérebro para reter a resposta certa (Kornell et al., 2009) Funciona até quando a resposta certa é impossível; o esforço de tentar já é o que conta
"Você tem certeza?" antes de corrigir Erros cometidos com alta confiança gravam a correção com mais força — a surpresa eleva a atenção (Butterfield & Metcalfe, 2001) Criar a expectativa antes de revelar a resposta certa
Tentar o problema antes da aula Alunos que fracassam antes da instrução formal desenvolvem compreensão mais profunda e transferência maior (Kapur, 2014) Precisa de consolidação clara ao final — a tentativa precisa chegar a algum lugar
~ Recast (reformular sem apontar o erro) Permite que o aluno perceba a diferença por conta própria, sem interromper a comunicação Funciona melhor com alunos avançados; iniciantes frequentemente não percebem que foram corrigidos
~ Elicitação (pista para autocorreção) A autocorreção é mais duradoura que receber a resposta pronta — mesmo mecanismo do retrieval practice Só funciona se o aluno já tem repertório para produzir a forma certa; caso contrário, dar o input agora e cobrar depois

✓ suporte forte na literatura · ~ eficaz sob condições específicas

Nenhuma dessas estratégias é uma receita universal. Todas dependem do nível do aluno, do tipo de conteúdo e, sobretudo, do clima que o professor criou em sala. Uma técnica de elicitação brilhante numa turma onde errar é seguro vira tortura numa turma onde o erro ainda tem custo social.

O que muda tudo — antes de qualquer técnica — é a resposta do professor ao erro quando ele acontece pela primeira vez na aula. Não o que o professor diz sobre errar. O que ele faz no momento em que o aluno erra de verdade.

Crianças levantando a mão com entusiasmo em sala de aula
Levantar a mão sem saber a resposta certa. Isso só acontece quando errar não tem custo.

O professor que muda o clima

Uma cena num museu de Londres.

Um grupo de crianças em visita escolar para em frente a um quadro. O professor pergunta se alguém sabe o nome do pintor. Quase todas as mãos sobem. Ele aponta para uma aluna — ela erra. Aponta para outra — erra também. Assim segue, por quatro, cinco tentativas, sem que ninguém demonstre constrangimento: nem quem errou, nem quem está na fila esperando.

Essa cena seria improvável numa sala de aula brasileira típica — não porque os alunos brasileiros sejam menos curiosos, mas porque aqui o custo de errar em voz alta é diferente. Levantar a mão e errar na frente dos colegas tem um risco social real: o riso, o comentário, o apelido que fica. Então a estratégia racional é não levantar. Esperar que outro erre primeiro. Falar só quando tiver certeza absoluta — o que, na prática, significa quase nunca.

A diferença entre as duas cenas não é de currículo, nem de metodologia. É de clima. E o clima, como a pesquisa mostra, é construído pelo professor — uma reação de cada vez.

A psicóloga educacional Maria Tulis (2013) analisou o comportamento de professores em sala de aula no momento em que alunos cometiam erros. O achado central foi este: o fator mais determinante para que um aluno aprenda com o próprio erro não é a técnica de correção usada. É o clima emocional que a reação do professor cria.

Um clima de erro positivo — aquele em que erros são tratados como ocorrências naturais e pontos de partida para pensar mais — produz o que os pesquisadores chamam de reação adaptativa: o aluno se engaja em entender por que errou, em vez de evitar o tópico ou desistir. Um clima punitivo produz o oposto: o aluno aprende a estratégia de proteção, que é tentar o mínimo possível.

E esse clima não é construído com discurso. Não basta o professor dizer "erro faz parte, não tenham medo". O que importa é o que acontece no segundo em que alguém erra de verdade, em voz alta, na frente dos outros. A entonação. O silêncio. O tempo que o professor deixa passar antes de intervir. A forma como a correção é enquadrada — como dado ou como falha.

Isso não significa ignorar erros ou evitar corrigi-los. Significa tratá-los como o que são: evidências do processo em andamento. Cada erro diz algo sobre onde o aluno está e o que ainda precisa acontecer. Corrigir bem não é eliminar o erro — é usar o erro para mover o aprendizado para frente.

Essa mudança não exige novo currículo, novo material ou nova metodologia. Ela começa antes de tudo isso — no momento em que o professor decide o que um erro significa.

50+

anos de pesquisa em linguística aplicada e ciência cognitiva apontam na mesma direção: o erro é um mecanismo de aprendizado, não um obstáculo a ele. A escola ainda não incorporou esse recado.

"Se o erro é o mecanismo, como avaliamos de forma que ele trabalhe a nosso favor?"

Próximo artigo
Testar para aprender: o que Roediger & Karpicke descobriram sobre avaliação →

Referências

Todos os artigos citados são peer-reviewed e publicados em periódicos científicos. Nenhuma fonte secundária ou de divulgação foi usada como referência primária.

Butterfield, B., & Metcalfe, J. (2001). Errors committed with high confidence are hypercorrected. Journal of Experimental Psychology: Learning, Memory, and Cognition, 27(6), 1491–1494.
Corder, S. P. (1967). The significance of learners' errors. International Review of Applied Linguistics, 5, 161–170.
Gregersen, T., & Horwitz, E. K. (2002). Language learning and perfectionism: Anxious and non-anxious language learners' reactions to their own oral performance. The Modern Language Journal, 86(4), 562–570.
Horwitz, E. K., Horwitz, M. B., & Cope, J. (1986). Foreign language classroom anxiety. The Modern Language Journal, 70(2), 125–132.
Kapur, M. (2014). Productive failure in learning math. Cognitive Science, 38(5), 1008–1022.
Kornell, N., Hays, M. J., & Bjork, R. A. (2009). Unsuccessful retrieval attempts enhance subsequent learning. Journal of Experimental Psychology: Learning, Memory, and Cognition, 35(4), 989–998.
Li, S. (2009). The differential effects of implicit and explicit feedback on L2 learners of different proficiency levels. Applied Language Learning, 19, 53–79.
Li, S. (2010). The effectiveness of corrective feedback in SLA: A meta-analysis. Language Learning, 60(2), 309–365.
Lyster, R., & Ranta, L. (1997). Corrective feedback and learner uptake: Negotiation of form in communicative classrooms. Studies in Second Language Acquisition, 19, 37–66.
MacIntyre, P. D., & Gardner, R. C. (1994). The subtle effects of language anxiety on cognitive processing in the second language. Language Learning, 44(2), 283–305.
Metcalfe, J. (2017). Learning from errors. Annual Review of Psychology, 68, 465–489.
Roediger, H. L., & Karpicke, J. D. (2006). Test-enhanced learning: Taking memory tests improves long-term retention. Psychological Science, 17(3), 249–255.
Schmidt, R. W. (1990). The role of consciousness in second language learning. Applied Linguistics, 11(2), 129–158.
Selinker, L. (1972). Interlanguage. International Review of Applied Linguistics, 10, 209–241.
Steuer, G., Rosentritt-Brunn, G., & Dresel, M. (2013). Dealing with errors in mathematics classrooms. Contemporary Educational Psychology, 38(3), 196–210.
Tulis, M. (2013). Error management behavior in classrooms: Teachers' responses to student mistakes. Teaching and Teacher Education, 33, 56–68.